Cresce cerco ao boi na AmazôniaMauro Zanatta, de Brasília
24/06/2009
A forte pressão internacional de compradores e ONGs ambientalistas obrigou a Associação da Indústria Exportadora de Carne Bovina (Abiec) a aceitar ontem um compromisso público de rejeição à aquisição de boi criado em áreas de desmatamento ilegal na Amazônia. Além disso, a Abiec negocia com o BNDES um programa de rastreamento eletrônico do gado na região da floresta com recursos do Fundo Amazônia, apurou o Valor.
Gestor do fundo composto por doações internacionais para preservação da Amazônia, o BNDES tem participação no capital de vários frigoríficos e busca responder à pressão internacional por mecanismos de proteção ao bioma amazônico. O fundo já tem US$ 110 milhões da Noruega, deve receber US$ 30 milhões da Alemanha, mas poderia captar US$ 17 bilhões até 2017, calcula o banco.
Acuados por denúncias das ONGs Greenpeace e Amigos da Terra, e por embargos decretados pelo Ministério Público do Pará a seus fornecedores, os frigoríficos criaram um "código de conduta socioambiental" com metas e prazo para instituir um "programa de excelência" e de "rastreamento ambiental e sanitário" aos pecuaristas. "Não faremos um compromisso falso com ministério A ou B nem algo para inglês ver", afirmou o presidente da Abiec, Roberto Giannetti da Fonseca, em audiência no Senado. "A Abiec assinará um compromisso com a sociedade".
A pressão é forte. Grandes redes varejistas, como Carrefour, Wal- Mart e Pão de Açúcar, anunciaram que rejeitarão carne de animais provenientes de áreas de desmatamento. A audiência na Comissão de Agricultura serviu para frigoríficos e ruralistas atacarem a ação de ONGs e do MP do Pará. Convidados, mas ausentes do debate, eles foram classificados como "mentirosos", "levianos" e "irresponsáveis" ao longo das discussões. "Para o MP, eles [as ONGs] são os heróis e as empresas, as bandidas", disse Gianetti.
As ONGs acusaram, em relatório difundido nos países compradores de carne e couro do Brasil, os frigoríficos de patrocinar desmatamento, trabalho escravo e invasão de terras indígenas na Amazônia. O MP do Pará autuou fazendas e empresas, além de ameaçar compradores do Bertin de co-responsabilidade por crimes ambientais supostamente praticados pelo frigorífico e seus fornecedores.
Gianetti defendeu ontem que, mesmo sem terem sido incluídos em listas restritivas por Ibama e Ministério do Trabalho, pecuaristas fornecedores da Bertin tiveram suas propriedades embargadas pelo MP. Os procuradores teriam tomado "atitude abusiva" e causado "destruição da reputação" da empresa. "Vamos ter que pedir solução ao Judiciário", afirmou. O executivo disse que as ONGs tiveram acesso ao sigilo fiscal da Bertin. "O Greenpeace disse ter tido acesso a dados fiscais em uma 'sala empoeirada' de Belém durante reunião, na Alemanha, com Adidas e Reebok", disse Gianetti.
Irritado com a ausência dos convidados, o senador Valter Pereira (PMDB-MS), presidente da comissão, afirmou que o MP deu demostração de que o órgão "não tem interesse" em debater e estaria agindo "ao arrepio da lei". "A ação do MP é equivocada e não tem embasamento legal", disse o senador Gilberto Goellner (DEM-MT). Os senadores decidiram realizar uma nova audiência pública, desta vez em Belém (PA), para debater o tema. Greenpeace e Ministério Público serão novamente convidados.
sábado, 27 de junio de 2009
domingo, 21 de junio de 2009
BRASIL MAYOR EXPORTADOR DE CARNE MUNDIAL
A carne sustentável
Carlos José Marques, diretor editorial
O Brasil é o maior exportador mundial de carne. O Brasil tem a maior produção de gado processado, as maiores áreas de confinamento, os maiores frigoríficos e os três maiores fornecedores mundiais: Friboi, Bertin e Marfrig.
Toda essa megaplataforma entrou na mira por um fator, aparentemente, colocado em segundo plano: a criação sustentável. Redes de supermercados brasileiras passaram a boicotar a compra de carne bovina originária de áreas de devastação florestal. As complexas estruturas dos grandes grupos do setor acabam por comprar e revender "matéria-prima" dessas localidades onde a exploração ilegal ocorre.
O boicote varejista alastrou-se. Conquistou simpatia em todo o mundo. O Banco Mundial rescindiu acordo com o Bertin, congelando linhas de financiamento para investimento na criação. A gigante de material esportivo Adidas cancelou a compra de pele dos frigoríficos brasileiros envolvidos na criação ilegal. As grifes de moda Hugo Boss, Prada, Gucci e Tommy Hilfilger seguiram pelo mesmo caminho.
O Ministério Público foi ao extremo de pedir a paralisação desses frigoríficos. A Polícia Federal deflagrou uma ampla caçada atrás dos pastos em áreas de desmatamento. O cerco se fecha e deixa no ar uma lição que deve ser assimilada urgentemente por todos os empreendedores brasileiros de qualquer ramo de atividade: no planeta politicamente correto não cabe mais espaço para aqueles que seguem fora da linha da preocupação ambiental. Desconsiderar essa regra básica pode ser fatal para os negócios.
Os desdobramentos da situação da atividade bovina na pauta comercial brasileira e, por tabela, na conta do PIB, já são alarmantes. Se não houver uma urgente reversão de expectativas internacionais, a partir de medidas concretas que levem à criação sustentável, o País todo sofrerá as consequências.
O setor de carnes é especialmente sensível a qualquer falha. Basta, por exemplo, que um único boi, numa região remota, contraia uma doença para que embargos gerais e irrestritos sejam estabelecidos por compradores para toda a produção brasileira. Nessa gangorra de humores, a simples ideia de que a carne nossa de cada dia está sendo gerada ao custo da devastação da Amazônia virou nitroglicerina pura.
Carlos José Marques, diretor editorial
O Brasil é o maior exportador mundial de carne. O Brasil tem a maior produção de gado processado, as maiores áreas de confinamento, os maiores frigoríficos e os três maiores fornecedores mundiais: Friboi, Bertin e Marfrig.
Toda essa megaplataforma entrou na mira por um fator, aparentemente, colocado em segundo plano: a criação sustentável. Redes de supermercados brasileiras passaram a boicotar a compra de carne bovina originária de áreas de devastação florestal. As complexas estruturas dos grandes grupos do setor acabam por comprar e revender "matéria-prima" dessas localidades onde a exploração ilegal ocorre.
O boicote varejista alastrou-se. Conquistou simpatia em todo o mundo. O Banco Mundial rescindiu acordo com o Bertin, congelando linhas de financiamento para investimento na criação. A gigante de material esportivo Adidas cancelou a compra de pele dos frigoríficos brasileiros envolvidos na criação ilegal. As grifes de moda Hugo Boss, Prada, Gucci e Tommy Hilfilger seguiram pelo mesmo caminho.
O Ministério Público foi ao extremo de pedir a paralisação desses frigoríficos. A Polícia Federal deflagrou uma ampla caçada atrás dos pastos em áreas de desmatamento. O cerco se fecha e deixa no ar uma lição que deve ser assimilada urgentemente por todos os empreendedores brasileiros de qualquer ramo de atividade: no planeta politicamente correto não cabe mais espaço para aqueles que seguem fora da linha da preocupação ambiental. Desconsiderar essa regra básica pode ser fatal para os negócios.
Os desdobramentos da situação da atividade bovina na pauta comercial brasileira e, por tabela, na conta do PIB, já são alarmantes. Se não houver uma urgente reversão de expectativas internacionais, a partir de medidas concretas que levem à criação sustentável, o País todo sofrerá as consequências.
O setor de carnes é especialmente sensível a qualquer falha. Basta, por exemplo, que um único boi, numa região remota, contraia uma doença para que embargos gerais e irrestritos sejam estabelecidos por compradores para toda a produção brasileira. Nessa gangorra de humores, a simples ideia de que a carne nossa de cada dia está sendo gerada ao custo da devastação da Amazônia virou nitroglicerina pura.
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